Publicado; 11 de janeiro de 2012 Filed under: Neofeminismo, Nosso tempo | Tags: camila macedo Leave a comment »
O recente episódio envolvendo a modelo Camila Macedo – considerada inadequada para um desfile do Fashion Rio por ter manequim 38 – só reforça a ideia de que o conceito de beleza hoje existe dentro de cercados diversos.

Modelo Camila Macedo foi "desconvidada" do Fashio Rio por ser "torneada" demais: padrão de beleza no cercado errado
No mundo da moda, por exemplo, ser bela é ser magérrima, esquálida, com os ossos aparentes ganhando lugar de honra nas fendas e decotes das roupas que vestem na passarela. A óbvia comparação a um cabide não poderia ser mais perfeita: esqueletos humanos bem-vestidos equilibrando-se em saltos imensos para, segundo alguns stylists, pode mostrar melhor as criações. Neste cercadinho fashion, uma mulher de 28 anos e manequim 38, com o corpo claramente saudável e bem torneado graças a uma boa dose de exercícios físicos, não será aceita. Camila Macedo e assemelhadas que encontrem outro cercado, provavelmente o das “saradas de academia”. Lá, importante mesmo é “ser durinha”, custe o que custar, sendo que algumas até exageram e passam a ostentar a forma de um halterofilista. Se as modelos de passarela passam fome para adquirirem o corpo ideal e chegarem a um peso inferior a 50 kg – mesmo tendo mais de 1,70 de altura -, as saradonas passam horas e horas puxando ferro, dando socos em alvos imaginários, correndo em esteiras e se alimentando de misteriosos “suplementos”, geralmente importados, que prometem um corpo tão musculoso quanto o de um homem. Aqui no Brasil, há ainda outro cercado facilmente identificável: o das “popozudas” ou o das “gostosas”. Para poder pertencer a este grupo, importante mesmo é ter “bundão”, “coxão”, “peitão”, termos que seriam mais adequados se estivéssemos falando de um peru de Natal, ou de um chester, não de um ser humano. A coisificação das mulheres neste cercado parece não perturbar suas integrantes, que ostentam apelidos estranhos como “Mulher Fruta” ou “filé” – sempre algo relacionado à comida, num trocadilho desagradável de tão óbvio, dadas as intenções dos homens em seu relacionamento (físico, sempre) com as gostosas. Outro dia, eu estava no elevador do meu prédio quando uma garota de 20 e poucos anos, num arroubo de sinceridade, acabou pensando em voz alta: “Se eu tivesse o teu cabelo, fazia chapinha todos os dias”. Fiquei sem ação e sem palavras, porque sinceramente não compreendo por que haveria a necessidade de deixar o cabelo liso, escorrido, todos os dias – ou no que eu me beneficiaria com isso. Acabei me dando conta de mais um cercado: o dos cabelos alisados. Por algo entre 200 e 500 reais – varia muito de um salão de beleza a outro -, qualquer adolescente, jovem ou adulta de cabelos cacheados ou ondulados pode adotar o look padrão “liso-escorrido”. Loiras, morenas, ruivas – verdadeiras ou tingidas – encaram um processo químico um tanto quanto sofisticado – e até mesmo perigoso, pois alguns alisamentos envolvem formol – para ficarem todas com capacetes iguais, esta é que é a verdade. Não sei quem decretou que o cabelo ondulado é feio, mas o estrago já foi feito: o cercado das alisadas é um dos maiores do país. A maioria de nós, mulheres, tenta a qualquer custo entrar num cercadinho desses, mais para fazermos frente a outras mulheres do que para seduzir os homens, numa busca insana por um padrão de beleza – ou por padrões de beleza – estabelecidos artificialmente sabe-se lá por que motivo. Felizes as mulheres que descobriram que o mais importante é se contentar com a beleza de serem únicas e belas ao seu modo e, então, viver num mundo livre de qualquer cerca, com todos os caminhos , as vivências e os sonhos que só a liberdade pode proporcionar.
Michel Teló na capa da Revista Época: os intelectualóides e mais uma discussão improdutiva e improcedente
Publicado; 4 de janeiro de 2012 Filed under: Humilde resenha, Jornalismo, Nosso tempo 3 Comments »No final de 2011, começaram a pipocar os vídeos no You Tube: primeiro, foram alguns jogadores de futebol aqui no Brasil comemorando seus gols com a já conhecidíssima dancinha do “Ai se eu te pego”, criada na cola do sucesso musical homônimo de Michel Teló; depois, apareceram o jogador português Cristiano Ronaldo, o tenista espanhol Rafael Nadal e – pasmem – um time de basquete dos Estados Unidos, como mostrou uma matéria do Globo Esporte de 2 de janeiro. Mais recentemente – e além da descontração natural do mundo do esporte – soldados israelenses também caíram na rede fazendo a tal coreografia ao som dos versos grudentos “Nossa/Assim você me mata”.
Os sisudos intelectuais de plantão tentam tirar a graça da coisa toda partindo para uma ferrenha crítica à imprensa em geral pelo fato de Michel Teló estar na capa da Revista Época desta semana, com os dizeres: “Com o sucesso ‘Ai se eu te pego’, o paranaense Michel Teló traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Saindo em defesa da revista Época, basta verificar como a canção surgiu para entender que ela realmente é uma síntese do caldeirão da cultura popular brasileira – que vai da música regionalista gaúcha até o forró nordestino, passando pelo country de Barretos e o pelo funk carioca. Todos esses ritmos ultrapassaram todas as fronteiras dos estados e das regiões do Brasil fazendo a massa dançar. A internet, por sua vez, levou a fusão de ritmos para o mundo, feito jamais realizado por qualquer outro artista brasileiro.
Michel, na verdade, é do estado do Mato Grosso, também reduto de Luan Santana, outro expoente do que se convencionou chamar de “sertanejo universitário”. De população formada basicamente por migrantes vindos dos estados do sul – Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná -, o caldo cultural que ali se formou juntou as influências musicais platinas dos gaúchos com a moda de viola do sertão. Por muito tempo, esse som ficou isolado nestes estados, dificilmente angariando fãs ou tocando nas rádios de Rio e São Paulo, até que outra fusão de culturas aconteceu: Barretos e seu rodeio meio americanizado, com direito a roupas de caubói – que poderiam servir de figurino a filmes B de faroeste – e ritmos da música country dos Estados Unidos. O próprio Luan Santana começou a sua carreira num palco secundário do evento gigantesco que é o rodeio da cidade do interior paulista. Foi ali que se popularizou um ritmo hoje chamado de “sertanejo universitário”, que não passa de uma mistureba entre o country rock dos EUA e a música sertaneja brasileira.
Contudo, uma simples americanização de um produto nacional não seria o suficiente para alcançar o mundo, pois já tivemos a Jovem Guarda nos anos 60, que jamais ultrapassou sequer o Rio São Francisco, quem dirá um oceano. Então, uma daquelas peculiaridades brasileiras – de estarmos sempre abertos a sons estrangeiros – também entra na fórmula mágica que transformou Michel Teló em sucesso internacional. No Nordeste, é comum os aparelhos de rádio captarem estações caribenhas, com toda sua variedade de ritmos dançantes – salsa, merengue, calipso (de onde surgiu o nome da banda paraense liderada pela vocalista Joelma). Para tais ritmos se fundirem ao forró nordestino e ao axé baiano, foi um pulo. E o que isso tudo tem a ver com Michel Teló? Numa rápida pesquisa na internet, encontra-se um artigo publicado no site do Yahoo Brasil (coluna Mixando, de Guilherme Bryan) onde há vários vídeos que comprovam a verdadeira origem do megahit “Ai se eu te pego”: uma funkeira – temos, então, a necessária “conexão Rio de Janeiro” para alcançar o sucesso nacional – chamada Sharon Acioly, de Porto Seguro, criou o bordão “Nossa, assim você me mata” em 2008 para brincar sedutoramente com seus dançarinos.
Temos então, primeiramente, dentro do território brasileiro, uma canção que reúne de Norte a Sul quase todas as influências musicais possíveis que já caíram no gosto popular, independentemente de classe social: a vanera dos bailões gaúchos, o sertanejo do centro-oeste, a letra maliciosa do funk, o visual country de Barretos, o ritmo dançante do forró nordestino, a coreografia do axé, além de um rosto bonitinho e um ar de malandro – muito bem representado por Michel Teló. Tudo o que as pessoas comuns mais adoram na hora de tomar uma cervejinha e cair na balada. E, pessoas querendo apenas dançar, esvaziar a cabeça e se divertir com amigos existem nos bares e nas boates do mundo inteiro, até mesmo dentro do vestiário de jovens atletas milionários.
E, finalmente, o elemento a que todos os críticos meio que torcem o nariz, mas que é incontrolável: o You Tube e a internet. Para um hit local e uma coreografia engraçada cair nas graças de um jovem lá na Ucrânia, basta um link. Talvez, se a famigerada dança da Boquinha da Garrafa tivesse um veículo como o You Tube, quantas menininhas do mundo todo não teriam imitado a Carla Perez? Infelizmente, há alguns intelectuais que classificam como lixo cultural qualquer coisa que se popularize pela web. Ou, pior, para se tornar ruim aos olhos desses críticos, basta ser popular no sentido de “apreciado pelas massas”, simplesmente.
Sinceramente, espero que os críticos intelectualizados parem se levar tudo tão à ponta de faca. Está na hora de evitarem a comparação improdutiva e improcedente entre cultura pop e a tal “cultura erudita”, e deixar de pensar que uma tira o valor da outra e vice-versa. Que os intelectuais continuem ouvindo Chico Buarque – a propósito, por que Buarque pode falar em “orifícios” numa de suas letras e o Latino não pode falar em kuduro? – e que a massa possa continuar a querer apenas uma coisa: breves momentos de diversão com a dancinha da moda, tão passageira quanto tantas outras que vieram antes.
Michel-Telo-Capa-Revista-Epoca
Publicado; 4 de janeiro de 2012 Filed under: Sem categoria 1 Comment »Intelectuais tentam transformar esta capa numa discussão séria… só tentam, porque não há polêmica alguma ali.
A revista Cláudia e o tio do Photoshop: como desacreditar uma matéria em alguns retoques
Publicado; 17 de agosto de 2011 Filed under: Neofeminismo, Nosso tempo 1 Comment »Nas redes sociais, o termo “tio do Photoshop” é amplamente utilizado para designar o profissional que carrega demais nos efeitos do famoso software de manipulação de imagens. Existe inclusive um site chamado Photoshop Disasters que faz a alegria de designers profissionais – e também de leigos no assunto – mostrando como uma imagem pode ficar desastrosa caso as ferramentas do programa sejam usadas de maneira inadequada. Há distorções tão bizarras que as fotos e as imagens originais ficam parecendo projetos de Frankenstein, com pedaços de corpos que não se encaixam, praticamente quadros cubistas ilustrando outdoors e capas de revista.

Os editores dizem q não, mas a mão pesada do tio do Photoshop pode ser percebida na capa da revista Cláudia deste mês
O uso do Photoshop na publicidade é notório. Já houve escândalos envolvendo marcas de cosméticos, por exemplo, que prometiam um resultado incrível na pele com o uso contínuo de seu produto, quando a mágica não estava exatamente no potinho de creme, mas nas inúmeras opções de ferramentas para tratamento de pele existentes no programa da empresa Adobe. Em alguns países, a desonestidade nas propagandas geralmente vai parar nos tribunais e rende ampla divulgação na mídia. Aqui no Brasil, contudo, a manipulação de imagens ainda é considerada inofensiva para alguns, grotesca para outros e sequer é percebida por milhões de pessoas. É justamente por este fato – de muitos ignorarem que uma imagem real foi alterada por um programa de computador – que a capa da revista Cláudia do mês de agosto é um atentado ao direito de informação por parte de suas leitoras.
A jornalista e apresentadora do Fantástico Renata Ceribelli aparece na capa de Cláudia com um vestido amarelo, um sorriso largo e um silhueta tão esguia que de cara desperta admiração – e desconfiança. Certamente muitos leitores de Cláudia acompanharam a saga de Ceribelli e de seu colega Zeca Camargo em busca de um corpo mais saudável e mais enxuto no quadro Medida Certa do programa dominical da Rede Globo. Declaradamente, Renata Ceribelli perdeu cerca de 9 quilos de gordura e 14 centímetros na medida da barriga. Sem dúvida, um bom resultado para os três meses de treinos físicos e reeducação alimentar exibidos no Fantástico como uma espécie de mini reality show. Só a mensagem da importância de ter uma boa forma física e alimentar-se saudavelmente já é louvável como um serviço de informação e de utilidade pública. Os esforços dos dois apresentadores em se mostrarem “gente como a gente” em busca de uma vida mais saudável garantiu uma boa audiência e muitos elogios por parte dos telespectadores. No entanto, a controversa foto da capa da revista feminina pode ter colocado a credibilidade do quadro do Fantástico a perder.
No momento em que Renata Ceribelli aprovou a foto da capa, a jornalista vendeu a alma ao diabo. Aceitou que uma imagem ilusória ajudasse a vender o sonho do corpo esguio às leitoras de Cláudia, em sua maioria mulheres adultas entre 25 e 50 anos. Pelo menos – talvez por descuido ou por apostar que ninguém perceberia – as imagens de Ceribelli nas páginas internas da revista são mais próximas da real silhueta da jornalista e aparentemente sofreram retoques mínimos. A polêmica, contudo, levou os responsáveis pela publicação da editora Abril a publicarem uma nota no início do mês afirmando que “A silhueta de Renata não sofreu nenhum tipo de retoque, como Photoshop” e que “A pose, com as mãos apertando a cintura e o tórax projetado para frente, emagrece mesmo”. Na nota, assinada pela repórter Marcia Kedouk, há ainda um desafio: Kedouk sugere às leitoras a tentarem a mesma pose e usar o mesmo tipo de “segredo” da editora de moda de Cláudia – usar roupas monocromáticas – para parecerem mais magras em fotografias. Pelos comentários dos internautas no próprio site da revista Cláudia, a justificativa não convenceu ninguém, pelo contrário: os leitores demonstram-se indignados pelo fato de os responsáveis pela polêmica foto subestimarem sua capacidade de mera observação de uma imagem. Tanto os braços quanto a cintura da jornalista, além dos quadris, parecem desproporcionais em relação ao resto do corpo, coisa que não acontece nas imagens internas da publicação, e muito menos quando assistimos à apresentadora ao vivo no Fantástico.
O que salva a edição de agosto da Revista Cláudia desta situação, no mínimo, embaraçosa é a lista das finalistas do prêmio Cláudia 2011, evento que busca trazer reconhecimento às mulheres brasileiras que desempenham papéis importantíssimos no desenvolvimento do nosso país e da sociedade como um todo. Uma delas é a advogada Maria Berenice Dias, uma das primeiras defensoras dos direitos dos homossexuais aqui no Brasil. Sem dúvida, uma mulher que não precisa de retoque algum para receber a admiração dos leitores de Cláudia.
As mulheres mutiladas: o relato de um soldado brasileiro no Afeganistão
Publicado; 31 de julho de 2011 Filed under: Neofeminismo, Nosso tempo 1 Comment »Dizem que a comédia sempre consegue dizer o que é necessário disfarçando temas espinhosos em meio ao riso. Uma das cenas mais interessantes do filme Date Night (traduzido no Brasil como Uma Noite Fora de Série), estrelado por Tina Fey e Steven Carell, acontece durante a reunião de um clube do livro, formado por donas-de-casa típicas da classe média alta americana num subúrbio de Nova Jérsei.
A obra em discussão nada mais é do que uma paródia do best-seller A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini, também autor de O Caçador de Pipas. Hosseini vendeu milhões de livros no mundo todo ao colocar o Afeganistão e o regime talibã como cenário para narrativas familiares dramáticas, aproveitando a curiosidade que se seguiu sobre o novo inimigo após 11 de Setembro. Na cena em questão, Carell é o único homem presente e lê em voz alta o trecho em que a personagem principal, uma menina afegã, caminha pelo deserto e percebe que menstrua pela primeira vez. Uma das integrantes do clube, totalmente desconcertada pela passagem do livro, chora copiosamente dizendo ao membro masculino da reunião, em tom de crítica: “Você não tem a menor ideia do que é ser uma adolescente tendo a sua primeira menstruação acossada pelo regime talibã”. Ao que o personagem de Carell retruca imediatamente: “E nem você.”
Essa cena do filme resume perfeitamente como nós, ocidentais, nos posicionamos em meio ao choque entre o nosso modo de vida e o que foi descortinado ao mundo depois que os EUA e as forças da OTAN entraram em guerra contra os talibãs. O que sabemos realmente sobre o cotidiano vivido pelos cidadãos afegãos, homens, mulheres e crianças sob tamanha repressão religiosa e política? Fora algumas pinceladas na literatura, no cinema e em reportagens especiais de grandes redes de televisão internacionais como a CNN e a BBC – na maioria filtradas pelas lentes do sensacionalismo ou pelo jogo de esconde-esconde das autoridades – pouco sabemos realmente sobre o que acontece lá com as pessoas comuns.

Um dos princípios da notícia é a proximidade: é inerente ao ser humano interessar-se pelos acontecimentos marcantes em sua comunidade, estado ou país. Por isso, a crueldade e o desrespeito aos direitos humanos de um regime tão distante de nós quanto o talibã, numa guerra em que o Brasil não está envolvido diretamente, pouco desperta o interesse da maioria dos que vivem aqui atualmente. Contudo, o jornal Zero Hora, na edição de 31 de julho de 2011, utilizou uma espécie de subterfúgio da lei da proximidade para tornar a realidade afegã notícia novamente e o resultado merece todos os elogios possíveis. O repórter Luiz Antônio Araújo localizou um catarinense, com familiares gaúchos, entre os marines norte-americanos que permaneceram setes meses em missão de paz no sul do Afeganistão. A estratégia de ter o relato de “um de nós” sobre uma cultura tão distante funciona como abrir a janela de nossas casas e ver o que acontece lá longe com nossos próprios olhos. Falta, geralmente, um “ver com os próprios olhos” para entender a dimensão deste choque cultural entre um povo estagnado em práticas medievais e o que temos feitos nos últimos séculos na Europa, na América e aqui no Brasil, principalmente no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade.
O olhar do marine Alexandre Danielli, 29 anos, que hoje vive na Califórnia, é o mesmo que muitos leitores de Zero Hora – em sua imensa maioria gaúchos e catarinenses, como Danielli – teriam ao se deparar com uma realidade completamente estranha ao nosso dia-a-dia. Em seu depoimento, percebe-se que o terror naquela região não é uma exceção, é a regra. Danielli mostra-se absolutamente chocado, por exemplo, com a violência contra as mulheres, contando como uma delas teve as duas mãos cortadas por apenas ter acenado aos soldados e como outra teve o nariz decepado pelo marido porque estava espiando a movimentação das tropas na janela.
O marine de Santa Catarina observa que, mesmo diante de horrores como este, são instruídos a “não interferir na cultura ou na religião deles”. Entra-se aqui num dos grandes dilemas de nosso tempo: é admissível que, por respeito à identidade cultural de um povo, permitam-se atrocidades como esta contra as mulheres? Se uma violência gratuita como essa acontecesse em nosso bairro, como reagiríamos? As mulheres afegãs são mães e são filhas, portanto, como se sentem esses soldados naquela terra assistindo a tudo isso, sabendo que se suas próprias mães e filhas lá vivessem sofreriam mutilações por motivos banais?
A reportagem especial de Luiz Antônio Araújo é pertinente, mesmo passados dez anos de 11 de setembro, porque nos leva a refletir sobre o que pode ser aceito ou não como mera diferença cultural. Estando a salvo da intolerância religiosa completamente cega, nos permitimos apenas lamentar o destino das mulheres afegãs, mas seu sofrimento não chega a ocupar as manchetes. Aqui, no ocidente, fanáticos extremistas e frios como o norueguês Anders Behring Breivik – que assassinou dezenas de pessoas ironicamente para “protestar”, entre outras coisas, contra a presença de islamistas na Europa – e o atirador do Realengo – por sua vez, um fanático pró-Islã – são tão raros que se tornam notícia imediatamente em todo o mundo. Na verdade, o islamismo e a cultura patriarcal afegã em si não são o problema. O problema é usar a desculpa de que as diferenças devem ser respeitadas para virar as costas às monstruosidades que lá ocorrem diariamente.
Considerações sobre radicalismo e fanatismo
Publicado; 17 de julho de 2011 Filed under: Nosso tempo Leave a comment »Se há uma grande paixão na minha vida profissional são as palavras. Gosto de estudar sua origem, seus significados, o que posso criar com elas, como traduzi-las para outros idiomas, em que contexto empregá-las com precisão ou, propositalmente, deixá-las com um significado ambíguo.
Por muito tempo, pensei nas duas palavras como sinônimos perfeitos. Mas, com certeza, não são: fanatismo implica necessariamente uma cegueira – temporária ou permanente – que leva o fanático a ver sua realidade e seu horizonte de expectativas como únicos e corretos; o radicalismo tem mais a ver com ser enfático e irredutível na defesa de uma ideia ou de uma ideologia. Vejo o fanático em transe. Vejo o radical em marcha. E a grande diferença aqui é que um estado é totalmente ébrio, o outro ainda é racional.
Ontem o Uruguai venceu um jogo dramático contra a Argentina nas quartas de final da Copa América. Sou fã de futebol, que vejo mais como uma forma de arte do que como um esporte, e tenho tendências radicais ao escrever no Twitter, por exemplo, que os homens que não gostam de futebol é porque certamente nunca foram bons de bola. Exagero, sim, mas apoiado num argumento psicologicamente passível de comprovação, dado o trauma que os garotos perna-de-pau carregam por uma infância inteira – e parte da adolescência – sofrendo humilhações no campinho de várzea do bairro. Nada mais óbvio do que cresçam tendo ojeriza ao futebol e a tudo que se refere a ele. Se eu fosse fanática por futebol, por exemplo, jamais teria casado com uma pessoa que realmente acha o jogo uma perda de tempo e já teria rompido relações com quem torce contra o meu amado Internacional.
E foi justamente o futebol que, por vias tortas, ofendeu alguém que tem uma relação com a religião bem diferente da minha. Postei uma foto do goleiro uruguaio Muslera, com a legenda “O Cara”. Um rapaz imediatamente colocou um comentário logo abaixo, com muita educação e já dizendo que não queria atingir ninguém, mas que “O cara é Jesus Cristo. mais uma vez, nao quero agredir ngm, é apenas um incentivo a reflexão.” Até entendi o que o rapaz quis dizer: talvez, o Brasil como um todo fique embriagado demais com o futebol, esquecendo que temos muitos problemas a resolver enquanto eterno país do futuro. Contudo, no momento em que a figura de Jesus Cristo é conclamada como única merecedora de uma expressão idiomática tão comum quanto “O Cara”, penso que a fronteira entre o radicalismo e o fanatismo foi cruzada. É o peso da religião, de um dogma, de uma série de preceitos que recai sobre algo que deveria ser apenas divertido: a eliminação da Argentina e a atuação soberba de um atleta. Na juventude, é muito fácil nos tornarmos fanáticos por alguma coisa: uma banda, uma tribo, uma marca de roupas, um ator de Hollywood, uma causa, uma seita. É por isso que exércitos e regimes fascistas preferem recrutar jovens, desde os primórdios da humanidade. Com o tempo e com o amadurecimento, percebemos que podemos muito bem abrir os olhos para os outros e para o mundo, e adotarmos uma postura mais livre do que o “pode/ não-pode”, “é/não-é”, “sim/não”. Nada nem ninguém é 100% correto e exato, nem mesmo a matemática – que não consegue explicar tudo como alguns matemáticos radicais cismam em defender.
Quando uma crença fervorosa ultrapassa o limite dos templos e das cátedras para invadir espaços que não são, de forma alguma, púlpitos para pregações, é porque o fanatismo tomou conta. Eu não nego que sou radical, defendo com ardor as ideias e as ideologias nas quais acredito, mas jamais tento fazer relações forçadas entre situações absolutamente diversas só para reafirmar minhas crenças aos quatro ventos. Também não tenho dificuldade nenhuma em mudar de opinião se houver argumentos sólidos que possam me convencer do contrário. Se eu fosse fanática, simplesmente não enxergaria nada diferente do que aquilo em que acredito.
Até mesmo ecologistas, cuja causa dificilmente pode ser alvo de críticas, podem resvalar e cair do radicalismo para o fanatismo se tirarem da mesa de um pobre uma espiga de milho só porque ela é transgênica. O esquerdista mais revolucionário ,que prega a igual distribuição de renda, se torna um fanático quando defende o controle da imprensa. O religioso que condena quem se nega a depender unicamente do místico e do etéreo para resolver sua vida é um fanático.
Tenho medo de fanáticos, muito medo, porque no momento em que a cegueira tomou conta de suas vidas, a razão já partiu há muito tempo. Quer convencer alguém? Quer espalhar suas ideias? Seja radical apenas, mas jamais se permita ficar cego a todo o resto.
Na terra do compreensível: tentando entender as decisões diplomáticas brasileiras.
Publicado; 26 de junho de 2011 Filed under: Sem categoria 2 Comments »
Klaus Fuchs é um nome pouco conhecido entre os que não estudaram a fundo a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Fuchs participou do projeto Manhattan, ou seja, foi um dos pais da primeira bomba atômica. Os soviéticos só puderam construir sua própria bomba atômica porque Klaus Fuchs entregou aos russos, de graça, quase todos cálculos e resultados de experimentos da equipe liderada por Oppenheimer. Foi um dos maiores casos de traição e espionagem jamais vistos na história da humanidade. Quando questionado sobre os motivos de ter passados os segredos da bomba H ao inimigo, Fuchs respondeu que o mundo ficaria menos perigoso se duas potências – e não apenas um único país – adquirissem o poder de exterminar com o mundo inteiro. Compreensível: se os Estados Unidos realmente tivessem só para si tamanha supremacia em relação a todos os outros países, quem iria garantir que não teríamos tempos muito mais sombrios após a Segunda Guerra do que foram os anos de Guerra Fria? Poder demais nas mãos de uma só pessoa ou de um só povo fatalmente resulta numa tirania.
O exemplo de Fuchs nada mais é que apenas uma tentativa de buscar na história um caso que nos leve a compreender por que Dilma Roussef mantém a postura diplomática discutível que Lula mantivera durante todo o seu mandato. Em junho, duas notícias envolvendo polêmicas decisões da diplomacia brasileira geraram muita controvérsia: a recusa da presidente em receber a advogada iraniana Shirin Ebadi – Nobel da Paz em 2003 – e a liberdade do criminoso italiano Cesare Battisti – condenado em 1988 por ter matado quatro pessoas na Itália.
O governo brasileiro há anos vem tentando se refugiar na terra do compreensível. A aproximação com o Irã segue a lógica de Klaus Fuchs, guardadas as devidas proporções: num mundo sem Cortina de Ferro, nem Muro de Berlin, o mais próximo que o superpoderoso governo americano teria como “marco regulatório antionipotência” é o controverso presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Desde as negociações na ONU para legitimar o programa nuclear do Irã – quando o Brasil tentou, a todo custo, defender o indefensável enriquecimento de urânio naquele país – percebe-se que questões ideológicas movem os diplomatas brasileiros. O governo do PT não admite que os Estados Unidos figurem solitários no comando do mundo, porque isso seria o mesmo que se curvar a um modelo de economia e de sociedade contrário ao modelo que os partidos de esquerda defendem.
Como membro do BRICS – o badalado grupo dos países em desenvolvimento, juntamente com Rússia, Índia, China e África do Sul -, o Brasil vem conquistando no cenário mundial uma posição que jamais teve no século XX. Hoje, nossa opinião realmente importa, porque somos uma democracia madura e uma economia em crescimento, ou seja, pouco tem a ver com a atitude meio “rebelde” do Itamaraty em relação aos americanos. Por isso, ignorar Shirin Ebadi – uma das mais importantes críticas ao atual governo iraniano – não deixa de ser uma mensagem diplomática ensurdecedora. Na balança do poder mundial, mesmo tendo recebido Barack Obama com todas as honras possíveis, Dilma Roussef colocou-se um pouquinho mais para o lado de Ahmadinejad, mesmo que aparentemente a contragosto. Em teoria, para manter o equilíbrio e a paz mundial, nosso governo esnobou uma reconhecida ativista pelos Direitos Humanos e afagou o ego de um governo totalitário.

Prêmio Nobel da Paz, a advogada iraniana foi varrida para debaixo do tapete pela contestável diplomacia brasileira.
O caso Cesare Battisti parece seguir uma linha um pouco diferente, mas só mesmo na aparência. Em nome da soberania nacional, o Supremo Tribunal Federal avalizou a decisão de Lula e tornou o criminoso italiano uma pessoa livre. Battisti inclusive já está trabalhando numa editora em São Paulo e pensa em se tornar cidadão brasileiro. O argumento dos defensores do antigo membro dos Proletários Armados pelo Comunismo, que conseguiram impedir sua extradição para a Itália, é o de que lá ele correria risco de vida. Interessante inversão de valores: será que se Shirin Ebadi voltasse ao Irã também não poderia ser executada por questões políticas? Por que Battisti se cobre de glórias e direitos em terras brasileiras enquanto Ebadi é quase varrida para debaixo do tapete em sua visita ao Brasil? Salvo seu comparecimento a meia dúzia de eventos organizados pelo setor privado e por universidades, onde foi aplaudida de pé, oficialmente pouco ou nada se fez para ajudá-la em sua incontestável luta pela democracia e pela justiça no Irã.
A história parece ter absolvido Klaus Fuchs de sua suposta traição e do fato de ter escancarado a Caixa de Pandora para os dois lados de uma guerra que, felizmente, não aconteceu. O que Fuchs fez se tornou um exemplo de como uma atitude condenável, com o tempo, pode tornar-se compreensível. No entanto, as atitudes diplomáticas do governo brasileiro aparentemente são compreensíveis, mas definitivamente não deixam de ser condenáveis.
Eduardo e Mônica e a memória afetiva: a força de um tema universal.
Publicado; 12 de junho de 2011 Filed under: Nosso tempo 1 Comment »
A gigante de telefonia Vivo lançou há alguns dias uma campanha publicitária no YouTube inspirada na canção Eduardo e Mônica, um dos clássicos da Legião Urbana, para celebrar o Dia dos Namorados. Como se fosse um videoclipe, dois atores encenam o romance entre os personagens principais de uma das canções de maior sucesso do rock brasileiro, tão popular quanto só podem ser as grandes histórias de amor.
A verdade é que muito do sucesso da propaganda da Vivo se deve ao fato de a equipe de criação da agência África ter empregado um dos preceitos básicos da propaganda: mexer com a memória afetiva das pessoas. A geração que hoje tem entre 25 e 40 anos é o público que as empresas de telefonia mais desejam atrair, para empurrar seu estoque de smartphones e tablets, pois é exatamente esta a faixa etária que pode arcar com os custos do aparelho e dos serviços a ele agregados. Portanto, por que não retomar uma canção que certamente ficou na memória dessas pessoas quando elas estavam entrando na adolescência, lá por meados dos anos 80?
Eu, por exemplo, recordo perfeitamente quando ouvi Eduardo e Mônica pela primeira vez, no rádio de um ônibus de excursão, voltando de Gramado junto com outros colegas da minha turminha de 7ª série. Aos 13 anos, conhecer a Legião Urbana foi uma espécie de rito de passagem para a adolescência, e o álbum Dois – de vinil! – foi o primeiro disco que comprei. Juro que lembro detalhadamente o pôr-do-sol que via pela janela do ônibus, serpenteando pela Serra Gaúcha, lembro a minha colega Rafaela acompanhando a letra e me divertindo muito com a narrativa do casal inusitado. Não tem quem não ache no mínimo simpática a história da garota mais velha, estudante de Medicina, que se apaixona pelo cara mais novo, bem inexperiente, e todas os paradoxos do relacionamentos dos dois: ela culta e descolada; ele tímido e bem “família”(a imagem de Eduardo jogando futebol de botão com seu avô é uma das mais lembradas pelos fãs da canção).
O Dia dos Namorados nada mais é que uma data criada a partir do original Valentine´s Day americano (que acontece em 14 de fevereiro, dia de São Valentim, o padroeiro dos enamorados). Aqui acontece em junho por questões meramente comerciais: é um mês sem grandes atrativos para o comércio, ao contrário de março (que tem todo o movimento de volta às aulas), abril (com a Páscoa), maio (com o Dia das Mães) e julho (com as férias de inverno). Enfim, faltava alguma coisa para que os trabalhadores pudessem torrar o salário do início do mês nas lojas – e percebam aqui a “coincidência”: geralmente, o “Dia de Alguém” cai na segunda quinzena, ou seja, logo depois do pagamento e muito antes do “aperto” de fim de mês. Talvez, a proximidade com o dia de Santo Antônio, nosso santo casamenteiro tenha inspirado algum precursor da publicidade e do marketing no Brasil a colocar mais uma data consumista no calendário – sim, vamos dar a definição verdadeira a tais eventos, ou alguém aí tem coragem de dar apenas um abraço em sua mãe no dia dela?
Contudo, a publicidade é uma área da comunicação sempre bastante admirada não pelo fato de fazer o dinheiro circular por meio de artimanhas inteligentes, mas principalmente pela inventividade envolvida na criação de uma campanha. Publicitários são inerentemente criativos, inspirados e inspiradores, caso contrário se tornam outra coisa. Ou, quando a criatividade é exacerbada e ultrapassa os limites do “ter que vender algo a alguém”, publicitários se tornam algo ainda melhor, como excelentes escritores (basta ver o caso de jovens como Carol Bensimon e Daniel Galera, ambos formados em Publicidade e Propaganda e que hoje são dois dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea).
Talvez o mais interessante no mundo da publicidade seja o fato de que as melhores campanhas surgem quase sempre de conceitos muito simples aliados à memória afetiva das pessoas. Foi o que aconteceu com o clipe da canção Eduardo e Mônica, singela atualização da história de amor cantada por Renato Russo, muito bem conhecida por uma geração inteira, que colocou os dois personagens principais no mundo de hoje, conectado por celular. Tanto por meio do Facebook quanto do Twitter – que redirecionavam os usuários para o YouTube -, a campanha publicitária da Vivo teve uma audiência digna de capítulo final da novela das 8. Enfim, parece que para alguns setores da economia, a televisão logo logo não vai fazer falta alguma, porque estamos conectados de outras formas.
A falta de sincronia entre a mídia tradicional e a internet: nada pode ser pior do que ficar sabendo por último.
Publicado; 4 de junho de 2011 Filed under: Nosso tempo 1 Comment »Impressiona o fato de que ainda há pessoas que insistem em separar o mundo real do mundo virtual, como se junto à tela do computador não houvesse ninguém, apenas entidades “ciberfantasmagóricas” comunicando-se com seus pares. Tal falta de bom senso em assumir, de uma vez por todas, que a internet de fato acabou por unir os dois mundos e borrar os limites entre o ciberespaço e as ruas gera uma total falta de sincronia entre a mídia tradicional e seu público. Exemplo disso é a perda de audiência dos canais de TV por assinatura, muitos deles incapazes de acompanhar o ritmo dos downloads de séries e filmes, sempre lançados com semanas de antecedência nos Estados Unidos.
A revista Superinteressante de maio traz uma matéria que aborda um dos muitos fenômenos curiosos nesses tempos de ajustes entre a popularização da internet e a mídia tradicional, que ainda não sabe muito bem o que fazer com o mundo online. Intitulada “Legendários”, a matéria traz depoimentos de anônimos que passam madrugadas traduzindo seriados americanos como Fringe, The Big Bang Theory e House para produzir legendas em português, disponibilizando-as depois para download gratuito. Quase sempre, a legenda produzida pelas equipes N.E.R.D.S e InSUBs é superior às legendas a que temos acesso nos canais por assinatura como Warner, Sony e Universal. Muitas dessas equipes de tradutores amadores são multidisciplinares: há desde estudantes de Física a enfermeiros, passando por professores de inglês e adolescentes de 15 anos. Isso facilita encontrar o termo mais preciso para traduzir as falas dos personagens (inclusive termos técnicos e científicos, além de gírias e expressões idiomáticas). A única desvantagem para tradutores como Wandy, Valfadinha e Flaviamar é que não recebem um único centavo pelo trabalho de tradução – geralmente muito bem pago pelas empresas especialistas em legendagem – e ainda correm o risco de sofrer processo judicial por, supostamente, colaborar com a pirataria (por isso os pseudônimos excêntricos).
A questão mais importante é tentar entender o que leva essas pessoas a unirem forças e produzir uma legenda o mais rapidamente possível, sem ter um retorno financeiro para isso. Ganhar notoriedade no meio nerd? Praticar seus conhecimentos em língua inglesa? Creio que não. Na era da internet, nada pode ser pior do que ficar sabendo por último. O maior exemplo disso foi Lost, a série cult do nosso tempo. Enquanto, nos Estados Unidos, o final surpreendente da terceira temporada gerava discussões intermináveis sobre o que viria a seguir, muitos brasileiros – ainda sem as manhas dos downloads via Torrentz – tiveram de esperar quase dois meses para saber que Jack e Kate já estavam, na verdade, fora da ilha. Contudo, para a maioria dos fãs de Lost, a surpresa foi “estragada” – numa alusão ao tão temido “spoiler”, prática de antecipar os acontecimentos ou o final de um seriado ou filme – justamente porque tudo na internet é imediato: simplesmente não há mais distância de tempo e espaço, e isso permitiu que toda a informação disparada de um ponto qualquer do mundo chegasse a todos os outros pontos com acesso à rede.
Fatos como esse criaram uma legião de internautas que, com acesso ao arquivo via Torrentz – que permite um download mais rápido, pois é abastecido por várias fontes simultaneamente de várias partes do mundo -, passaram a assistir aos episódios das séries mais populares poucas horas depois de sua transmissão nos Estados Unidos e criar um canal de comunicação com outros fãs ao legendar o programa gratuitamente. A mesma legião de internautas, hoje, não têm TV por assinatura pelo simples fato de que os canais parecem estar sempre atrasados: esperar para ver sua série favorita na televisão paga aqui no Brasil é o mesmo que ler uma revista de dois anos atrás na sala de espera de um consultório médico qualquer. Para a geração que praticamente cresceu com a internet conectando-os com todos os pontos do planeta, recebendo notícias e batendo papo com outros iguais (por que não?) na Europa, na Ásia, na América do Norte, sempre em tempo real, como não achar obsoleto um canal de TV que leva quase um mês inteiro para transmitir um episódio de uma série?
Contudo, não são apenas os canais por assinatura que sofrem com a falta de ritmo para acompanhar a velocidade da internet e dos internautas. Os jornais impressos parecem não ter decidido ainda se devem render-se ao formato online ou reinventar o conceito de periodicidade diária, que um dia já foi considerada frenética, e hoje parece simplesmente o resto de uma notícia requentada
Revistas femininas e o transtorno de dupla personalidade: o caso Marie Claire.
Publicado; 15 de maio de 2011 Filed under: Jornalismo, Neofeminismo, Nosso tempo 3 Comments »Ler revistas femininas é algo do qual ninguém escapa, seja na sala de espera de um consultório médico, seja num salão de beleza ou até mesmo na sua casa (por que não?). Há algumas publicações interessantes no mercado, mas eu só posso falar daquela que leio com certa regularidade: a Marie Claire.
O slogan da revista publicada pela Editora Globo até que promete: “Chique é ser inteligente”. Com isso, presume-se que, dentro das páginas de Marie Claire, possamos encontrar artigos que ultrapassem o universo de futilidades típicas das ditas “publicações femininas” e suas fofocas sobre celebridades, editoriais de moda e resenhas de best-sellers de autoajuda. Contudo, já no editorial escrito pela diretora de redação Mônica Serino, no número de maio/2011 da MC, sentimos que o transtorno de dupla personalidade que acomete vários veículos de comunicação infelizmente também se abateu sobre a revista.
Serino começa o texto do editorial celebrando os 20 anos da Marie Claire no Brasil e comemora o fato de, em 2001, ter “inaugurado” com Xuxa o que ela chamou de “fase de celebridades” nas capas da publicação. Em seguida, faz algumas observações técnicas sobre a “sofisticação gráfica” e a “linguagem visual elegante” da MC, rendendo-se, obviamente, ao apelo poderoso da imagem quando deveria, em tese, deixar isso em segundo plano. Texto e conteúdo deveriam ser a prioridade absoluta de uma revista que prega a inteligência como condição sine qua non para pertencer a um nicho de mercado mais exigente.
A edição de maio até que traz boas reportagens: destaco a matéria sobre o fenômeno pick up artists, tema inédito na imprensa tradicional, e também a reportagem sobre uma adolescente transexual vítima de bullying, além de uma reportagem com fotos magníficas sobre o Vietnã, um destino de viagem um tanto quanto peculiar. O problema é que, no editorial de Mônica Serino, não há uma linha sequer chamando a atenção das leitoras para o que a Marie Claire ainda tem de diferencial em relação a outras publicações voltadas às mulheres. Serino encerra sua “Carta do Editor” citando apenas a inauguração de uma nova seção batizada de Lifestyle, que, segundo ela, integra “três temas que amamos: viagem, culinária e decoração”. Vejo aqui, portanto, uma aproximação do que já é clichê nas pautas de outras publicações como Cláudia, Elle e Nova, que, como é de praxe, deixam para suas páginas finais as matérias sobre destinos turísticos, receitas e ideias para a casa.
Nem mesmo o depoimento de uma professora sobrevivente da tragédia na escola do bairro Realengo, do Rio de Janeiro, mereceu destaque por parte da diretora de redação. Tal tema, provavelmente, poderia ser considerado um “furo” jornalístico, já que ainda não havia sido mostrado, com tal profundidade, o ponto-de-vista da professora que estava na sala de aula e, em pânico, fugiu do atirador deixando outros alunos lá dentro. O drama dessa mulher – e o peso que carrega – mereceria mais destaque por parte da chefia de redação. Contudo, para uma revista que passa por uma visível crise de identidade, faz mais sentido destacar no índice um editorial de moda intitulado New Tweed, que traz modelos tão jovens que mais parecem figurantes do seriado adolescente Malhação. Chega a ser constrangedor que meninas tamanho 34, magérrimas a ponto de suas mãos parecerem desproporcionalmente gigantes perto de suas cinturinhas minúsculas, façam parte de um editorial de moda teoricamente voltado a mulheres de 25 a 40 anos.
A Marie Claire, como muitos sabem, é uma publicação internacional que faz parte da história da imprensa, tendo atravessado quase todo o século 20 como a primeira revista feminina voltada a encorajar as mulheres a buscarem autonomia e desenvolvimento pessoal. Foi criada na França em 1937 por Jean Prouvost com periodicidade semanal. Durante a ocupação germânica, em 1942, as autoridades francesas cancelaram a distribuição de várias publicações, incluindo a MC, que retornou às bancas apenas em 1954, já com periodicidade mensal. Nos anos 90, começou a ser publicada também no Brasil e nos Estados Unidos, sempre com a proposta de prover as leitoras mais intelectualizadas com matérias de caráter jornalístico, buscando, principalmente, confrontar aspectos socioculturais de diferentes povos e de outras realidades. No site da Marie Claire Brasil, por exemplo, há uma página dedicada a relembrar as melhores matérias dos 20 anos da publicação brasileira. Vale a pena conferir, por exemplo, uma reportagem de 1993 sobre as diferentes cerimônias de casamento nas tradições cristã, judaica, cigana, islâmica: entre fotos magníficas e texto primoroso, como leitoras nos sentimos brindadas com o melhor que o jornalismo pode oferecer.
Uma lástima que, 20 anos depois, a futilidade pareça ter vencido. No site da Marie Claire brasileira, há a seguinte lista de tópicos na página inicial: moda, desfiles, beleza, vídeos, divirta-se, entrevistas, sexo, e (o horror dos horrores) gurus e horóscopo. Com a esperança de que o link “entrevistas” pudesse direcionar para uma bombástica e reveladora conversa com alguém realmente relevante nos cenários nacional ou mundial, encontro apenas mais uma série de matérias voltadas aos mundos da moda, da beleza e do balacobaco de celebridades. Nenhuma linha sequer realmente “inteligente”, termo tão propagado no slogan da revista. A crise de identidade pela qual passa a Marie Claire tem o sabor amargo da derrota: estamos perdendo, talvez, um dos últimos espaços em que a reportagem, o texto, o conteúdo, o “furo” ainda tinham importância e destaque no mercado editorial voltado ao público feminino. A revista está-se tornando-se apenas “mais do mesmo”, ampliando o espaço para a moda e a beleza (e suas tendências altamente discutíveis) em detrimento das reportagens que um dia consolidaram a marca Marie Claire, a revista feminina mais respeitada do mundo.




